Escola Base 2
O ombudsman da "Folha", Marcelo Beraba, toca num assunto muito pertinente na coluna do último domingo: a forma como alguns jornais noticiaram a suspeita de que uma mulher de Taubaté (SP) teria matado a própria filha colocando cocaína em sua mamadeira, suspeita que acabou totalmente descartada.O caso começou no final de outubro e terminou no início deste mês, quando a mãe, presa em flagrante na ocasião, foi libertada da prisão após ser espancada covardemente e de duas formas: na cela e também nas páginas da imprensa.
Jornais "populares" (eufemismos utilizados pelos barões da mídia para designar veículos cuja grande pretensão é a venda em bancas), como o "Diário de S.Paulo", noticiaram com escândalo, dando o nome da acusada e foto na primeira página. O título era uma sentença: "Mãe mata bebê com mamadeira de cocaína".
A afirmação do "Diário" baseava-se num laudo preliminar que detectou a droga. Mas, tanto era preliminar –e o jornal sabia disso- que acabou desmentido por um laudo definitivo, que não encontrou cocaína alguma na mamadeira.
Acontece que as manchetes fizeram a festa nas bancas antes desse laudo definitivo. E, de acusada, a mãe do bebê acabou vítima não apenas do Estado, que a expôs à violência do cárcere sem sequer ter havido crime, como de parte da mídia, mais preocupada com o lucro que com a verdade.
Eis uma situação que poderia ser o capítulo 2 do triste caso Escola Base, quando praticamente toda a grande imprensa embarcou na denúncia de que donos de uma escola em São Paulo estavam assediando alunos, denúncia que nunca foi comprovada mas, após a explosão do caso na mídia, foi capaz de acabar com a vida dos donos da escola.
Em ambos os casos, tinham-se denunciante, autoridade confirmando a investigação e outro lado negando. É a fórmula do "moderno" jornalismo, tão simplista quanto falível. Simplista porque boa parte das redações carecem de estrutura para investigar a fundo os fatos, já que grande parte da imprensa mais tem se preocupado com investidas de marketing do que com o velho e bom jornalismo; falível porque não basta ter uma denúncia, uma autoridade que a sustente e apenas a negativa do outro lado nas poucas horas entre a "apuração" do repórter e a publicação.
Eis um fato concreto a respeito do que já foi escrito neste blog: a mídia continua suscetível a cometer o mesmo erro do caso Escola Base. Deveria refletir profundamente sobre esse risco, apostando na busca incessante da verdade e da investigação, tendo sempre em mente que a integridade humana está acima do covarde apelo ao sensacionalismo.
Imagem SXC


6 Comments:
Despreparo, desestruturada, inexperiente... isso contribui sim, para o surgimento de informações infundadas capazes de colocar em xeque a credibilidade e idoneidade de muitas mídias que levaram anos para conseguir.
Porém acredito que boa parte destes deslizes deve-se a incessante busca da informação exclusiva. O fato nem bem foi consumado e já é primeira página.
Para que esperar perícias e laudos se podemos ter um furo de reportagem aqui ?
Não digo a mídia más, os profissionais de comunicação precisam parar de sonhar com seus nomes embaixo de uma bomba e lembrarem que respondem por instituições formadoras de opiniões.
Como já dizia minha avó: "Quem é apressado, come cru".
Bellisoni, bem-vindo ao blog. Interessante seu comentário. Concordo com você sobre esse fator, ou seja, a busca cega pela informação exclusiva (o furo, no jargão jornalístico), mesmo que muitas vezes isso custe a própria veracidade do fato a ser retratado. Esse fenômeno tem pautado muitas redações de jornal, que se preocupam mais com a concorrência do que com o próprio leitor. O leitor quer boa informação e ponto. Se for furo, melhor, mas antes tem de ser boa informação. Acontece que muitas vezes o ego que faz muitos jornalistas flutuarem os impede de enxergar isso.
A propósito, tem uma história muito boa que ouvi numa palestra de Moacyr Castro, sobre um repórter que trabalhava num grande jornal da Capital décadas atrás e cobriu a coletiva do então secretário estadual de saúde, que falava sobre um surto de meningite. Disse o secretário que um dos problemas era que a doença se transmite pelo perdigoto. O repórter não sabia o que era "perdigoto", mas não teve a humildade de perguntar diante dos colegas de outros veículos. Então, recorreu ao dicionário ao chegar ao jornal. E estava lá, no primeiro sinônimo: "filhote de perdiz". Ele fez a reportagem dizendo que o filhote de perdiz transmitia a doença, sem se atentar ao segundo sinônimo de perdigo, sobre o qual o secretário falava: as gotículas de saliva que lançamos ao ar ao falar.
Grande abraço!
Não podemos nos esquecer da notícia amplamente divulgada até em nível nacional, sobre uma professora da nossa região acusada pela mãe de um aluno de tê-lo deixado de castigo além do horário das aulas. A professora sofreu horrores.
A última notícia que lí sobre o caso dava conta que não foi bem aquilo que tinha acontecido, a família se mudou da cidade e a advogada da professora estudava processar a mãe da criança, que teria agido (assim como a mídia) de forma precipitada. Mas, outra vez o estrago já tinha sido feito.
Cleusa, bom exemplo, próximo da nossa realidade regional. Havia, na ocasião, uma mãe denunciando que o filho era maltratado pela professora na escola. Havia um boletim de ocorrência, ou seja, um documento comprovando a denúncia. E havia a professora negando tudo. Ora, de novo, a fórmula pronta. O que muitos veículos de imprensa (jornais, rádios e TVs até de Campinas e SP) fizeram: detonaram o caso em manchetes, inclusive revelando o nome da professora. Acontece que a sindicância aberta para apurar as denúncias acabou a inocentando. Tarde demais para quem já a condenou no noticiário.
Qual a conduta que vejo como correta -e a adotamos no LIBERAL, na época: publicamos o fato sem alarde e poupamos os nomes da professora e da escola. Ela só apareceu nas reportagens quando a sindicância concluiu as investigações e porque quis falar sobre o ocorrido.
Penso que a prudência vale mais que a "bomba" noticiosa que acaba explodindo sobre a verdade. E sobre vidas inocentes.
Abraços!
E da-lhe processo contra o estado
Concordo que deveriamos ter uma imprensa um pouco mais coerente e justa. Quem responde éticamente e criminalmente por um "erro jornalistico" advindos de fontes duvidosas ou mesmo de pessoas que querem se aproveitar de determinada situação. Não é necessário apurar a veracidade dos fatos. Jornalista "famosos" ficam atras da telinha lendo aquele montão de bobagens às 8 da noite emburrecendo as pessoas e todo o meio jornalistico achando o máximo alcançar uma posição de "status" dessa magnitude. Uma vergonha. Preciariamos de mais espaço como este para formar opiniões com profissionais competentes como o Marcos. Grande abraço e parabens.
Postar um comentário
<< Home