11.12.06

Escola Base 2

O ombudsman da "Folha", Marcelo Beraba, toca num assunto muito pertinente na coluna do último domingo: a forma como alguns jornais noticiaram a suspeita de que uma mulher de Taubaté (SP) teria matado a própria filha colocando cocaína em sua mamadeira, suspeita que acabou totalmente descartada.

O caso começou no final de outubro e terminou no início deste mês, quando a mãe, presa em flagrante na ocasião, foi libertada da prisão após ser espancada covardemente e de duas formas: na cela e também nas páginas da imprensa.

Jornais "populares" (eufemismos utilizados pelos barões da mídia para designar veículos cuja grande pretensão é a venda em bancas), como o "Diário de S.Paulo", noticiaram com escândalo, dando o nome da acusada e foto na primeira página. O título era uma sentença: "Mãe mata bebê com mamadeira de cocaína".

A afirmação do "Diário" baseava-se num laudo preliminar que detectou a droga. Mas, tanto era preliminar –e o jornal sabia disso- que acabou desmentido por um laudo definitivo, que não encontrou cocaína alguma na mamadeira.

Acontece que as manchetes fizeram a festa nas bancas antes desse laudo definitivo. E, de acusada, a mãe do bebê acabou vítima não apenas do Estado, que a expôs à violência do cárcere sem sequer ter havido crime, como de parte da mídia, mais preocupada com o lucro que com a verdade.

Eis uma situação que poderia ser o capítulo 2 do triste caso Escola Base, quando praticamente toda a grande imprensa embarcou na denúncia de que donos de uma escola em São Paulo estavam assediando alunos, denúncia que nunca foi comprovada mas, após a explosão do caso na mídia, foi capaz de acabar com a vida dos donos da escola.

Em ambos os casos, tinham-se denunciante, autoridade confirmando a investigação e outro lado negando. É a fórmula do "moderno" jornalismo, tão simplista quanto falível. Simplista porque boa parte das redações carecem de estrutura para investigar a fundo os fatos, já que grande parte da imprensa mais tem se preocupado com investidas de marketing do que com o velho e bom jornalismo; falível porque não basta ter uma denúncia, uma autoridade que a sustente e apenas a negativa do outro lado nas poucas horas entre a "apuração" do repórter e a publicação.

Eis um fato concreto a respeito do que já foi escrito neste blog: a mídia continua suscetível a cometer o mesmo erro do caso Escola Base. Deveria refletir profundamente sobre esse risco, apostando na busca incessante da verdade e da investigação, tendo sempre em mente que a integridade humana está acima do covarde apelo ao sensacionalismo.

Imagem SXC

6 Comments:

Bellisoni said...

Despreparo, desestruturada, inexperiente... isso contribui sim, para o surgimento de informações infundadas capazes de colocar em xeque a credibilidade e idoneidade de muitas mídias que levaram anos para conseguir.
Porém acredito que boa parte destes deslizes deve-se a incessante busca da informação exclusiva. O fato nem bem foi consumado e já é primeira página.
Para que esperar perícias e laudos se podemos ter um furo de reportagem aqui ?
Não digo a mídia más, os profissionais de comunicação precisam parar de sonhar com seus nomes embaixo de uma bomba e lembrarem que respondem por instituições formadoras de opiniões.
Como já dizia minha avó: "Quem é apressado, come cru".

8:38 PM  
Marcos Brogna said...

Bellisoni, bem-vindo ao blog. Interessante seu comentário. Concordo com você sobre esse fator, ou seja, a busca cega pela informação exclusiva (o furo, no jargão jornalístico), mesmo que muitas vezes isso custe a própria veracidade do fato a ser retratado. Esse fenômeno tem pautado muitas redações de jornal, que se preocupam mais com a concorrência do que com o próprio leitor. O leitor quer boa informação e ponto. Se for furo, melhor, mas antes tem de ser boa informação. Acontece que muitas vezes o ego que faz muitos jornalistas flutuarem os impede de enxergar isso.
A propósito, tem uma história muito boa que ouvi numa palestra de Moacyr Castro, sobre um repórter que trabalhava num grande jornal da Capital décadas atrás e cobriu a coletiva do então secretário estadual de saúde, que falava sobre um surto de meningite. Disse o secretário que um dos problemas era que a doença se transmite pelo perdigoto. O repórter não sabia o que era "perdigoto", mas não teve a humildade de perguntar diante dos colegas de outros veículos. Então, recorreu ao dicionário ao chegar ao jornal. E estava lá, no primeiro sinônimo: "filhote de perdiz". Ele fez a reportagem dizendo que o filhote de perdiz transmitia a doença, sem se atentar ao segundo sinônimo de perdigo, sobre o qual o secretário falava: as gotículas de saliva que lançamos ao ar ao falar.
Grande abraço!

11:50 PM  
Cleusa L.Degrossoli said...

Não podemos nos esquecer da notícia amplamente divulgada até em nível nacional, sobre uma professora da nossa região acusada pela mãe de um aluno de tê-lo deixado de castigo além do horário das aulas. A professora sofreu horrores.
A última notícia que lí sobre o caso dava conta que não foi bem aquilo que tinha acontecido, a família se mudou da cidade e a advogada da professora estudava processar a mãe da criança, que teria agido (assim como a mídia) de forma precipitada. Mas, outra vez o estrago já tinha sido feito.

11:01 AM  
Marcos Brogna said...

Cleusa, bom exemplo, próximo da nossa realidade regional. Havia, na ocasião, uma mãe denunciando que o filho era maltratado pela professora na escola. Havia um boletim de ocorrência, ou seja, um documento comprovando a denúncia. E havia a professora negando tudo. Ora, de novo, a fórmula pronta. O que muitos veículos de imprensa (jornais, rádios e TVs até de Campinas e SP) fizeram: detonaram o caso em manchetes, inclusive revelando o nome da professora. Acontece que a sindicância aberta para apurar as denúncias acabou a inocentando. Tarde demais para quem já a condenou no noticiário.
Qual a conduta que vejo como correta -e a adotamos no LIBERAL, na época: publicamos o fato sem alarde e poupamos os nomes da professora e da escola. Ela só apareceu nas reportagens quando a sindicância concluiu as investigações e porque quis falar sobre o ocorrido.
Penso que a prudência vale mais que a "bomba" noticiosa que acaba explodindo sobre a verdade. E sobre vidas inocentes.
Abraços!

12:34 PM  
Anonymous said...

E da-lhe processo contra o estado

1:20 PM  
Pereira said...

Concordo que deveriamos ter uma imprensa um pouco mais coerente e justa. Quem responde éticamente e criminalmente por um "erro jornalistico" advindos de fontes duvidosas ou mesmo de pessoas que querem se aproveitar de determinada situação. Não é necessário apurar a veracidade dos fatos. Jornalista "famosos" ficam atras da telinha lendo aquele montão de bobagens às 8 da noite emburrecendo as pessoas e todo o meio jornalistico achando o máximo alcançar uma posição de "status" dessa magnitude. Uma vergonha. Preciariamos de mais espaço como este para formar opiniões com profissionais competentes como o Marcos. Grande abraço e parabens.

8:23 PM  

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