21.12.06

Duas vergonhas

Nestes cinco dias de férias litorâneas, em que ao menos tentei me policiar ao máximo para não me aproximar tanto de publicações noticiosas (uma busca de "desintoxicação" sem muito sucesso), senti vergonha de ser brasileiro por duas vezes.

A primeira vergonha senti quando li sobre a obscena ação das Mesas da Câmara e do Senado federais de tentar praticamente dobrar seus próprios salários. Senti vergonha não só de ter nascido e de viver no mesmo país dos deputados e senadores que, a despeito de suas atitudes desastrosas como representantes da nação, ainda querem ganhar R$ 24 mil mensais (mais R$ 50 mil de verbas de gabinete, mais R$ 3 mil de auxílio moradia etc etc etc) na mesma pátria onde há quem passe fome. Senti também vergonha de não poder impedir que, do meu salário, sejam descontados -automaticamente- tantos dias suados de trabalho para bancar tal farra.

A segunda vergonha senti quando assisti a uma propaganda de cerveja na TV. Uma mulher chega a um "mestre", indignada e pedindo ajuda, mostrando a camisa do marido manchada de batom no colarinho (o que evidencia que ela foi traída). O "mestre" pede que a mulher beba de sua cerveja para comprovar que aquilo é "normal". O batom dela fica no copo, ao lado do "colarinho" da bebida, e a similaridade entre os colarinhos e os batons, segundo ele, significa que ela não deve se preocupar, ou seja, deve aceitar a situação. Primeira mensagem do comercial: a mulher deve aceitar ser traída. Mas não fica por aí. Após a mulher dizer que o "mestre" salvou seu casamento, ele responde que isso não ficará de graça. Segunda mensagem: além de passível de traição, a mulher deve ser um objeto de prazer do homem.

Eis o Brasil onde o pesadelo da política só cresce e não preocupa quase ninguém. E os devaneios causados pelo "deus" marketing, que rotula a cerveja e os políticos, reforçam o machismo, o banditismo e outros tantos "ismos" que nos mantêm nas trevas, totalmente à margem da civilização.

Imagem SXC

3 Comments:

Andréa said...

Pois é... Esses escândalos estão deixando o País à beira de um ataque de nervos... ou cada vez mais passivo? A cada dia que passa me questiono mais se nosso famoso pacifismo não significa, na verdade, "idiotismo" (neologia criada para mostrar o quando estamos sendo feitos de idiotas por aqueles que, supostamente, elegemos para nos representar). Quanto à propaganda... bem, o que pode se dizer de um País em que, a cada ano que passa, a ausência de roupa se intensifica nas mulheres, a ausência de calcinhas é comentada e fotografada sem problemas (com desculpas de "não vi, o fotógrafo invadiu minha intimidade"), e pessoas famosas fazem questão de tornar seus atos vulgares públicos? Tristeza mesmo... E vergonha de ser brasileira, mais uma vez.

6:13 PM  
Marcos Brogna said...

Andréa, vou contar um caso que me chamou a atenção meses atrás e ilustra um pouco o nosso debate. Uma amiga minha que morou anos em Londres estava num supermercado no Brasil e, ao ver uma velhinha no final da fila do caixa, pegou-a pela mão e a levou para ser atendida preferencialmente, justificando que era um direito legal dar preferência aos idosos. Pois imagina você que um machão que seria atendido naquele momento brigou com ela, porque não aceitava que a pobre velhinha "furasse" a fila. E o caso acabou na delegacia.
Essa amiga minha hoje está morando na Alemanha, pois nunca se adaptou à forma como o brasileiro pratica ou aceita a ilegalidade, fazendo valer ou deixando acontecer o "jeitinho" horroroso de se levar vantagem sobre os outros.
Não, não acredito que no "primeiro mundo" os cidadãos sejam perfeitos. Acontece que por aqui a cultura da impunidade é um escândalo. O Brasil carece dos corretos e, mais que isso, dos que saibam dizer não aos incorretos, seja na fila do supermercado, seja em qualquer lugar. Só assim se constrói uma nação. Pena que parece que muitos brasileiros ainda não estão muito interessados numa nação de direitos e, principalmente, de deveres.
Esses exemplos que você citou, das calcinhas "esquecidas" por quem quer ser capa de revista de fofoca, ou ainda dos garanhões heróicos da trama banal de Manoel Carlos, dos cariocas "exxxxxperrrrtos" da horrenda tramóia global das sete, ou da forma debochada como os garotos do "Pânico" tratam pessoas que fogem aos padrões etários ou de beleza, são todos retratos de um país ainda muito pobre de espírito, que ri da própria desgraça.
Felizmente, temos raras exceções que nos mantêm aqui na "pátria amada", suando a camisa por um futuro, quem sabe, melhor. Abraços!

7:42 PM  
Tânia said...

Acredito que isso seja um "defeito humano" não apenas dos brasileiros! Tenho muitos amigos que moram no exterior e reclamam das mesmas situações e até piores (quando sentem o quanto é bom estar no Brasil). Quanto ao comercial sugiro o texto de Marilene Felinto da Caros Amigos de dezembro que fala sobre a TV dos homens gordos e das mulheres perfeitas. O machismo está na TV, nos comentários dos homens com os amigos - e me perdoem os homens - todos, cultivam de certa forma essa cultura machista, até para não serem hostilizados pelos outros machistas. Ah, e tem mais mulher que gosta de discutir politica fica solteira...rs! Como já escrevi outro dia, ultimamente estou com vergonha de SER HUMANA!

9:40 PM  

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