Jornalismo anoréxico
“Toda a mídia tem falado da morte da modelo por anorexia. Tirando a lamentável perda de alguém tão jovem, vejo muita hipocrisia na cobertura. Até que ponto a imprensa não ajuda na produção dessas pessoas? Vou explicar: várias vezes, recebi, junto com meu jornal, um encarte de moda. No último que recebi, alguns meses atrás, as modelos eram tão magras que mais pareciam estar na sala de espera de uma clínica para tratamento de anorexia. Vocês valorizam esses ‘modelos de beleza’, vendem esses ‘produtos’ e depois se dizem chocados! Por que não boicotar esse tipo de exploração da magreza humana?”O texto acima é de Amélia Artes e foi publicado na seção de cartas da “Folha de S.Paulo”. As palavras traduzem a indignação de espectadores diante de uma imprensa que está procurando mais Ibope que qualquer outra coisa ao discutir o tema “ditadura da beleza”. Hoje, por exemplo, Olga Bongiovani intercalava, entre os debates sobre anorexia em seu programa na Rede TV, merchandising de produtos para emagrecer, que ela anunciava como “formas saudáveis de perder peso”.


5 Comments:
Há um tempo lí um artigo publicado em uma revista de RH (recursos humanos) sobre um novo tipo de capital que o mercado vem exigindo do trabalhador -o Capital Estético.O mesmo explica que a magreza, hoje considerada símbolo de beleza, vem sendo considerada medida de valor para o sucesso profissional de qualquer trabalhador, ou seja,as pessoas mais bonitas são mais "bem sucedidas" no mercado de trabalho. Um tipo de capital perverso para quem não foi comtemplado pela natureza, terá que buscá-lo incansavelmente, a qualquer custo sob pena de colocar em risco sua empregabilidade. Até onde isso pode chegar?
Hoje fiquei sabendo de uma outra moça de 21 anos que morreu por complicações devido a anorexia. Confesso que hoje fico assustada e penso que poderia não mais aqui. Quando eu tinha 19 anos pesava 66kg para 1,75m, um peso considerado saudável. Eu fazia parte de uma turma de amigos na qual eu gostava muito de um rapaz que acabou namorando com outra menina da turma (mais magra, bem estilo "modelo")e todos falavam que ela era mais bonita pois era mais magra que eu. Comecei me achar feia, inferior as outras meninas e com muita raiva de tudo aquilo, decidi emagrecer. Nunca provoquei vomito, apenas parei de comer. Disfarçava a fome com chás, sucos diet e leite desnatado. Passava muitas horas sem comer, as vezes dias. Só comecei a perceber o que estava acontecendo quando cheguei aos 50kg (1,75M). Passei a ter infecções (respiratórias, urinárias) com maior frequencia e sentia muito cansaço e tonturas frequentes. Fiz exames, e ainda estava em tempo, pois não estava com problemas mais graves. Decidi procurar ajuda pois sabia que não dava pra encarar aquilo sozinha. Na minha familia nunca ninguem soube, eu sempre disfarçava a magreza e na época que isso aconteceu + ou - 8 anos atrás não havia tanta divulgação sobre a anorexia. Precisei esperar um médico do SUS, pois por causa da doença, do cansaço, das tonturas e da fraqueza já não conseguia mais trabalhar. Passei por uma depressão profunda e achava que não conseguiria mais sair daquele "buraco negro" que eu havia caido. Mas eu consegui, renasci e muito mais forte que antes. Fiz o tratamento recuperei parte do peso e minha auto-estima hoje é autissima. Sou feliz e muito mais forte que antes, mas tive sorte de ter "acordado" a tempo e "percebido" sozinha o que estava acontecendo comigo. A maior amiga da anorexia é nossa mente e nossa imaginação que ficam criando fantasias e nos torna dependentes de um padrão imposto não sei por quem que só valoriza a beleza fisica da mulher e não o que ela pensa ou sente.
Excelente o comentário sobre a imposição do padrão de beleza existente hoje em nossa mídia. Outro dia conversei com um cirurgião plástico por telefone e ele me disse uma frase que me deixou estarrecida: "É claro que todo mundo quer ser bonito, porque as pessoas de sucesso e bem sucedidas são magras e bonitas". Imagino que se ele estivesse falando pessoalmente não teria feito tal comentário, porque me encaixo na categoria das "rechonchudas" - desde sempre, aliás, o que nunca me tirou a chance de qualquer emprego ou de conseguir um namorado. Se for assim, como Jô Soares, Faustão e Cláudia Gimenez (só para citar nomes conhecidos no País) conseguiram o sucesso? Os três, aliás, são muito conhecidos pelo "corpinho" que possuem. Lembro-me de uma época em que o Jô emagreceu bastante e o público não gostou de sua nova imagem. O Bola, do Pânico, é um dos nomes mais queridos do grupo, e também não é nenhum exemplo de magreza ou beleza. Será que somente as pessoas magras mesmo que são bem sucedidas? Infelizmente, este tipo de conceito está cada vez mais arraigada na sociedade, principalmente entre as adolescentes. O que mais precisa acontecer, além das duas mortes das jovens a semana passada, para que essas meninas obcecadas acordem e parem de buscar um corpo que, pela sua própria natureza, não possuem?
Em sua coluna sobre a decisão do STF em relação à obrigatoriedade do diploma para jornalistas, os conhecimentos técnicos necessários por você citados são ensinados em dois semestres, sendo possível diminuir isso para um semestre. Colocando os etcs, que não sei o que seriam, daria no máximo um ano de formação.
Caro "Anônimo", no referido artigo em que defendo o diploma para Jornalismo, não estou considerando faculdades que fazem consórcio de certificados. Nessas, talvez realmente em semestre seja possível sair um "formando" que pense ter requisitos mínimos para fazer e editar uma reportagem para um veículo impresso, outra para radiofônico, outra para TV, outra para o mundo novo da internet e ainda um texto de assessoria de imprensa, tudo com requisitos mínimos de checagem, preceitos éticos e clareza. E ainda tenha conhecimentos mínimos sobre legislação e teoria da comunicação, esta um riquíssimo campo a se trabalhar e que explica tão bem os fenômenos que envolvem a mídia atual (cuja maneira de atuar é tão bem enquadrada na Escola de Frankfurt). A teoria da comunicação, muito estudada até em cursos de doutorado, é apenas um dos "etcs".
Creio que fazer comunicação é muito mais que um bate-papo de "sabidões". É uma ciência, precisa ser muito bem ensinada, precisa ser material de estudo acadêmico para não acabar apenas refém dos interesses do "vil metal", como tanto se vê neste Brasil tão refém dos maus jornais, que nada têm a ensinar, apenas deformam o profissional e a notícia.
Se há faculdades ruins (e há, como há péssimos jornais), consertemos o problema em vez de simplesmente matar o doente pensando estar acabando com a doença. Abraço para você!
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