16.11.06

A indústria da anorexia

Ela tinha apenas 21 anos. E, com 1,74 metro de altura, pesava minguados 40 quilos. No cardápio diário, tomate e maçã, que geralmente terminavam no vaso sanitário, por conta da bulimia, que era, por sua vez, associada à anorexia.

A morte da modelo Ana Carolina Reston Macan não é apenas um caso chocante. É mais um exemplo da cruel ditadura da beleza que se impõe cada vez mais sobre as jovens no Brasil e as torna seguidoras de uma alucinação sem volta: elas não comem por conta de uma obsessiva vontade de ser magras, provocam vômito para evitar que o pouco que comem faça engordar e ainda se vêem gordas mesmo quando esqueléticas.

O problema seria menor se fosse apenas mais um dos “modismos” presentes na múltipla gama de tribos juvenis. Não é só isso: trata-se de uma situação patrocinada e estimulada pela indústria da moda, que começa no marketing das grandes griffes, tem larga contribuição da mídia e se materializa em agências de modelos. É uma grande fábrica de ilusão, que produz caveiras andantes, distantes do padrão real de seres humanos, e muito próximas da morte.

14 Comments:

diógenes said...

Marcos, a mídia tem poder suficiente para altetrar os chamados "padrões da moda" (detesto esta expressão). Mas infelizmente, este caso, como quase tudo, está sendo explorado de maneira sensacionalista e oportunista.

5:19 PM  
Bassora said...

As incriveis disparidades. E' marcante a morte desta menina, lamentavel, como sao pertubadores tambem os problemas causados pela obesidade. A questao se volta sempre para o equilibrio, mas estamos envoltos numa sociedade ocidental de consumo, em busca pelo maximo em tudo. Culto ao egotismo ou auto-indulgencia. Senso critico, descondicionamento e educacao ganham a cada dia novos significados e importancia. Abracao, Marcos.

6:30 PM  
Marcos Brogna said...

Caro Diógenes, penso que a mídia acaba remando na mesma direção do mercado, que coloca vidas em prateleiras e resume seres humanos a frias cifras.
Meu amigo Bassora, acrescento ao seu belo comentário o lado "machão" dessa disparidade consumista, que se traduz no uso de esteróides e anfetaminas para os músculos crescerem artificialmente. Tudo se quer comprar neste ocidente, como você bem lembrou.

7:45 PM  
Silvana Romero Cia said...

Realmente é lamentável uma morte deste jeito como foi a da modelo Ana Carolina. Serve de alerta para as famílias que vêem em suas filhas, "minas de ouro", achando que no mundo glamoroso das passarelas elas conseguirão muito dinheiro e fama. Sem dúvida, tem gente que dá muito certo. Mas infelizmente, vez ou outra aparecem casos como o da Ana Carolina, que nos deixam com um gosto amargo na boca, pensando no quanto sofrem estas meninas querendo ser magras. O mundo da moda é cruel pra quem está fora do "padrão". Quem sabe agora o sinal vermelho se acende e todos os que estão neste negócio passem a olhar com mais carinho não somente o corpo, mas também o coração destas criaturas. Só nos resta desejar que ela descanse em paz e que a família tenha forças para suportar sua perda.

11:57 AM  
Bellisoni said...

Marcos,
Coloco aqui um link de uma campanha feita pela Dove para conscientizar o mundo sobre os reais padrôes de beleza.
http://www.campaignforrealbeauty.com/
Com alguns retoques de photoshop, qualquer garota pode virar uma Gisele Bündchen (caso de beleza natural).
O interessante é notar que o exagero é tamanho no processo de modificação capaz de mudar "literalmente" a estética da pessoa em exposição. O que reforça a teoria de estas garotas serem, em sua maioria nesse segmento, cobaias, fantoches, das griffes.
Que padrões de beleza são estes que fazem as passarelas lembrarem automóveis em linha de produção do mesmo modelo e ano, saindo todos iguais ?
Só acho Marcos, que a sociedade tem certa parcela de culpa também pois, embora exista um contraste devido a preocupante questão de obesidade lembrada pelo Bassora, aceita de forma passiva esses padrôes.

10:01 AM  
Anonymous said...

É um absurdo a insistência em atingir e querer manter um peso anormalmente baixo, as vezes, muito aquém do estipulado pela Organização Mundial da Saúde. Este último, mesmo assim deve ser visto com ressalvas, haja visto que a massa corporal de um indivíduo para outro pode variar em função de diversos fatores (compleição física, treinamento esportivo entre outros...). Sem dúvida, a mídia exerce um papel preocupante, mas acima de tudo não podemos nos esquecer que não são todas as jovens vulneráveis a isso, como é bem conhecido o enígma da "gaiola de ouro", reduto de jovens superprotegidas e que recusam-se a crescer. Em outras palavras, inconscientemente não aceitam as novas formas do corpo, diga-se, as formas femininas, o que isso pode acarretar na vida delas. Assim, acham melhor manter um corpo que não desperte interesse sexual em homem algum, e com isso uma paralização de suas próprias dinâmicas de vida em um sentido mais amplo, pois crescer significa muita coisa, significa ser alguém por si mesmo, imputável pelos seus atos, capaz de decidir e acar por tudo o que faz. Parece-me bem mais complicado a dinâmica da anorexia nervosa. Importante mesmo é a abordagem do fato o mais precoce possível, mesmo assim, a estrutura da personalidade já estará com um bom nível de comprometimento. Fica aqui a questão: "Se nascemos livres, porque vivermos como escravos?"

5:15 PM  
marydalva nogueira meneghel said...

Trabalho c/ Educação física e nas conversas c/ as alunas, a grande maioria se sente insatisfeita c/ o corpo que tem. Por mais que informamos e esclarecemos situações como essa,parece que o que vale mesmo é ser magra a qqquer custo.Não pensam na saúde,simplesmente na estética.Realmente os meios de comunicação em relação a moda,que dita a magreza como "padrão" faz e continua fazendo a cabeça dessas jovens que aliada a baixa-estima entram nesse mundo perigoso de ilusão...

6:24 PM  
Nena said...

Vivemos a ditadura da beleza. Infelizmente a forma passa a ser mais importante que o conteúdo. Essas adolescente vêem na televisão e revistas de moda modelos e atrizes lindas, quase sempre magras e querem ser iguais, achando que com isso serão felizes. Ledo engano, uma vez que a felicidade é de dentro para fora.

12:52 AM  
Anonymous said...

Concordo com Nena, os padrões de beleza "defendidos" se tornam meta de vida pra alguns jovens, que os perseguem a qualquer custo. Alem dessa, houve mais uma morte essa semana provavelmente por anorexia. Também admiro muito a campanha DOVE que usa mulheres fora desses padrões e incentiva as diferenças. Beleza é muito mais do que aparencia fisica, é uma combinação de fatores que tornam uma pessoa agradavél ou não. Afinal também de que adinata ser magra, linda e ser fútil e desagradavél.
L.vasconcellos

6:43 PM  
soraya said...

O caso hoje é a anorexia, mas vamos lembrar quantas mulheres já morreram numa mesa de operação, pra fazer a suada lipoaspiração...Os padrões de beleza distorceram o que mulheres e homens são na realidade. O culto ao corpo (louvável, se bem praticado) é algo que transcende o bom senso. Os homens querem mulheres perfeitas e as mulheres que "ficaram" perfeitas, querem homens iguais. O puxa-estica nosso de cada dia está cada vez mais presente. Hoje, em sociedade, é quase comum vermos mulheres entre 40 e 60 anos com botóx nos lábios e seios da face (o que as torna mulheres meio idênticas...). Meninas com corpo por amadurecer ainda, tresloucadas em busca de seios siliconados. Então Marcos, tudo é muito relativo mesmo...a mídia constrange as "cheinhas" (lembre-se do que fazem os repórteres do programa Pânico)e humilha as mulheres que têm rugas.
Portanto, não sei mais se o ser humano é um caos, se os apelos publicitários é que são, ou se é geral, termos uma insatisfação tão grande, que não suportamos mais nossas dimensões em nenhum espelho do planeta.

Boa sorte e um abraço!

3:51 PM  
Marcos Brogna said...

Muito bom seu comentário, Soraya! Bem lembrado o fenômeno das clínicas de estética, algumas delas mais salões de beleza com bisturi do que clínicas, de fato (um grande perigo, problema de saúde pública).
Esse culto ao corpo de hoje em dia inspira um paralelo com o que havia no império grego, por exemplo, onde se cultuavam as belas formas físicas até nas figuras divinas. Mas não havia, na época, o corpo como mercadoria, porque não havia ainda o capitalismo. Acho que pioramos no sentido da coisificação da vida, não? Grande abraço.

4:03 PM  
Soraya said...

Pioramos porque não pensamos mais, em nós como pessoas, mas como instrumentos. Meras ferramentas... Máquinas. Tratores!!!!

"há de haver o tempo em que todas as coisas serão retomadas: o amor pra amar e o corpo, só pro prazer" (Joana Tasso).

5:45 PM  
Anonymous said...

Marcos ... devido a esses relatos, estou realizando meu trabalho de conclusaõ de curso sobre - Mídia e a imagem corporal.

4:21 PM  
Marcos Brogna said...

Belo tema, Anônimo!

4:33 PM  

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