Raridade
Uma voz rara na mídia brasileira, abaixo editorial de Jessyr Bianco, presidente do LIBERAL.
"O que contém o dossiê contra o candidato José Serra?
Os políticos estão de tal forma habituados a mascarar a verdade que acabam acreditando na própria mentira. Quando a Polícia Federal realizou operação de busca no escritório da empresa Lunus, de propriedade de Roseana Sarney e seu marido, flagrando a montanha de notas que somavam R$1,34 milhão, a reação foi irada, mas as explicações, vazias e desastradas. O PFL, de que a filha do poderoso ex-presidente Sarney era figura de relevo na política do Maranhão, considerou a operação uma violência, “um atentado à liberdade” da então senadora e candidata à presidência da República. Ela culpou o presidente FHC (presume-se porque não impediu a diligência, segundo as normas aplicáveis aos detentores do poder). Atribuiu o incidente a uma armação do PSDB, arquitetada por José Serra, então ministro da Saúde de FHC. Qual a finalidade da diligência policial, sob os holofotes da Globo? A resposta oferecida pelo próprio PFL: 'para solapar o prestígio da presidenciável', que já exibia, como atributos, a circunstância de ser mulher, branca e aristocrata.
Para explicar a origem legal da dinheirama, os implicados apresentaram diversas versões: dinheiro de troco para pagamento de empregados avulsos, venda de propriedade, recebimento de créditos escriturados, etc. Se uma versão não convencia, passava-se a outra. Finalmente, após várias explicações rejeitadas sobreveio a definitiva: a montanha de notas era produto de doações para a campanha da candidata. Que nem havia ainda sido indicada pela convenção do partido.
Qual a diferença entre este episódio de nossa recente crônica política e a compra do propalado dossiê contra o candidato a governador José Serra? Praticamente nenhuma. Nem no tocante ao valor, já que o de R$1,34 milhão deve ser corrigido monetariamente desde o ano de 1998.
Em ambos os casos o objetivo era não o de defender o erário, mas destruir candidaturas, mediante a criação de fato político relevante a duas semanas da eleição. Era tão patente esse propósito que as fotos do dinheiro apreendido, que estava sob sigilo e guarda da Polícia Federal, acabaram vazando para a imprensa e estão sendo objeto de ampla divulgação. Para alegria do PSDB, amplamente favorecido pelo episódio desgastante para a imagem do PT e seu candidato.
Jorge Bornhausen (PFL) e Tasso Jereissati (PSDB), em sucessivas entrevistas, repetiram que o povo queria saber de onde viera o dinheiro e quem o disponibilizou para aquisição do dossiê contra José Serra. Pensamos que os eleitores têm a mesma pressa em conhecer o conteúdo do referido documento, principalmente porque se fosse falso ou morno não valeria tanto.
Ninguém tem o direito de violentar a consciência do eleitor, sua vontade, criando notícias de impacto, que podem revelar-se amanhã destituídas de veracidade, mas cujos efeitos deletérios já não possam mais ser anulados.
Políticos não são anjos. Veja-se o escândalo do mensalão, dos sanguessugas, em que estão envolvidos políticos, funcionários e parlamentares de todo os partidos e tendências.
'A política real – escreve o escritor peruano Vargas Llosa – não aquela que se lê, se escreve e se imagina, mas a que se pratica no dia-a-dia, tem pouco a ver com os ideais, os valores da generosidade, da solidariedade e do idealismo. Ela é composta quase exclusivamente de manobras, intrigas, conspirações, pactos, paranóias, traições, e uma dose não negligenciável de cinismo. Porque o que efetivamente mobiliza, excita, e mantém em atividade o político profissional, seja ele de centro, de esquerda ou de direita, é o poder, chegar-se a ele, manter-se nele ou voltar a ocupá-lo o mais depressa possível'.”
"O que contém o dossiê contra o candidato José Serra?
Os políticos estão de tal forma habituados a mascarar a verdade que acabam acreditando na própria mentira. Quando a Polícia Federal realizou operação de busca no escritório da empresa Lunus, de propriedade de Roseana Sarney e seu marido, flagrando a montanha de notas que somavam R$1,34 milhão, a reação foi irada, mas as explicações, vazias e desastradas. O PFL, de que a filha do poderoso ex-presidente Sarney era figura de relevo na política do Maranhão, considerou a operação uma violência, “um atentado à liberdade” da então senadora e candidata à presidência da República. Ela culpou o presidente FHC (presume-se porque não impediu a diligência, segundo as normas aplicáveis aos detentores do poder). Atribuiu o incidente a uma armação do PSDB, arquitetada por José Serra, então ministro da Saúde de FHC. Qual a finalidade da diligência policial, sob os holofotes da Globo? A resposta oferecida pelo próprio PFL: 'para solapar o prestígio da presidenciável', que já exibia, como atributos, a circunstância de ser mulher, branca e aristocrata.
Para explicar a origem legal da dinheirama, os implicados apresentaram diversas versões: dinheiro de troco para pagamento de empregados avulsos, venda de propriedade, recebimento de créditos escriturados, etc. Se uma versão não convencia, passava-se a outra. Finalmente, após várias explicações rejeitadas sobreveio a definitiva: a montanha de notas era produto de doações para a campanha da candidata. Que nem havia ainda sido indicada pela convenção do partido.
Qual a diferença entre este episódio de nossa recente crônica política e a compra do propalado dossiê contra o candidato a governador José Serra? Praticamente nenhuma. Nem no tocante ao valor, já que o de R$1,34 milhão deve ser corrigido monetariamente desde o ano de 1998.
Em ambos os casos o objetivo era não o de defender o erário, mas destruir candidaturas, mediante a criação de fato político relevante a duas semanas da eleição. Era tão patente esse propósito que as fotos do dinheiro apreendido, que estava sob sigilo e guarda da Polícia Federal, acabaram vazando para a imprensa e estão sendo objeto de ampla divulgação. Para alegria do PSDB, amplamente favorecido pelo episódio desgastante para a imagem do PT e seu candidato.
Jorge Bornhausen (PFL) e Tasso Jereissati (PSDB), em sucessivas entrevistas, repetiram que o povo queria saber de onde viera o dinheiro e quem o disponibilizou para aquisição do dossiê contra José Serra. Pensamos que os eleitores têm a mesma pressa em conhecer o conteúdo do referido documento, principalmente porque se fosse falso ou morno não valeria tanto.
Ninguém tem o direito de violentar a consciência do eleitor, sua vontade, criando notícias de impacto, que podem revelar-se amanhã destituídas de veracidade, mas cujos efeitos deletérios já não possam mais ser anulados.
Políticos não são anjos. Veja-se o escândalo do mensalão, dos sanguessugas, em que estão envolvidos políticos, funcionários e parlamentares de todo os partidos e tendências.
'A política real – escreve o escritor peruano Vargas Llosa – não aquela que se lê, se escreve e se imagina, mas a que se pratica no dia-a-dia, tem pouco a ver com os ideais, os valores da generosidade, da solidariedade e do idealismo. Ela é composta quase exclusivamente de manobras, intrigas, conspirações, pactos, paranóias, traições, e uma dose não negligenciável de cinismo. Porque o que efetivamente mobiliza, excita, e mantém em atividade o político profissional, seja ele de centro, de esquerda ou de direita, é o poder, chegar-se a ele, manter-se nele ou voltar a ocupá-lo o mais depressa possível'.”


2 Comments:
Meu caro companheiro Marcos,
Infelizmente o presente da imprensa nacional é triste. O valor da notícia fica intrinsecamente ligada a carga negativa do fato. É a lei do "quanto pior melhor", isso é regra geral. O caso do dossiê é emblemático. Todas teorias de conspiração que envolvam o PT vira notícia contundente, se no lugar do Serra fosse qualquer figura do Partido dos Trabalhadores, já estaria este devidamente crucificado com a palavra ladrão estampada ao lado da estrela vermelha, assim como fez o seu jornal na edição de hoje. O fato relevante, que são as imagens do dossiê, esta esquecido, das provas irrefutáveis contra o senhor José Serra e o prefeito de Piracicaba, Barjas Negri, esta no limbo, a verdadeira notícia escapa pela inércia das redações deste pais e escorre pelo ralo da história. Quando temos o senhor Pedro Malan ditando as noticias da maior revista jornalística deste pais (Veja) da bem pra entender este momento.É triste saber como a nossa imprensa pode ser tão facilmente manipulada.
Felicidades
Caro Geraldo,
Concordo que a grande mídia carrega as tintas e está numa ladeira sem freio, fugindo ao caminho da imparcialidade. Jornais do interior dependem de agências de notícia, que são propriedade desta grande mídia, para noticiar assuntos nacionais e internacionais.
O que temos feito aqui, além de diversificar fontes de informação ao máximo, é ter cuidado na edição das mesmas. Demos manchete no site e matéria no impresso sobre o possível envolvimento de Barjas Negri. Muitos jornais ignoraram o assunto. Não publicamos, por exemplo, a foto do dinheiro que seria negociado para o dossiê, por considerarmos que ela está mais ligada à campanha política que à investigação sobre o caso.
A mídia está embriagada na fumaça e se esquecendo do fogo. E o editorial acima é dos poucos a fazer essa crítica, ou seja, cobrar que se tire a cortina de fumaça para se ver o que (ou quem) está realmente no fogo.
Forte abraço, felicidades para você também.
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