16.10.06

Jornalismo in memorian - 8

Voltemos bastante na máquina do tempo, mais especificamente para 1968, início da linha dura do regime militar, quando censores (pessoas indicadas pelo governo para censurar informações que não interessavam aos milicos) faziam parte da "paisagem" das redações de jornais e revistas. Chegava o AI-5, o ato institucional mais severo do governo militar, que abriu caminho para torturas, mortes e exílios.

Estava proibido noticiá-lo, claro. Não interessava ao governo ter um País consciente de que se estava retirando direitos civis. Mas muitas foram as formas geniais encontradas por algumas publicações. Uma delas foi "Veja" (olha a "Veja" aí de novo, mas para uma análise elogiosa).

A revista driblou a censura de forma genial, o que resultou na capa acima reproduzida. O presidente do grupo Abril, Roberto Civita, falou sobre esta capa anos atrás numa entrevista ao "Programa do Jô". Era horário de almoço em dia de fechamento de "Veja" e foram, Civita e o censor, para o restaurante da editora. Ao chegar lá, o presidente da Abril pediu vinho à vontade para ambos e deixou que o censor se fartasse do néctar de Baco.

Ao voltarem para a redação, Civita mostra a foto em que o presidente da República está sentado em cadeira do Congresso Nacional e diz que gostaria de ilustrá-la na capa da "Veja" daquela semana. O censor pergunta: "Mas que título o sr. vai dar para isso?". Civita, muito esperto, diz: "Ora, nenhum". Então, a capa é liberada.

Precisa título? A foto mostra o presidente sentado num Congresso vazio, ou seja, o Executivo se apossando do Legislativo. Em uma imagem, sem nenhuma letra, estampava-se o AI-5. E eis uma "Veja" que contribui para a democracia do País.

2 Comments:

Luiz said...

Bons tempos em que a "Veja" era prestável...

3:48 PM  
João said...

A Veja (na época, ainda cheirando à Mino Carta) contruiu um bom nome, antes de se arruinar em partidarismos baratos.

3:50 PM  

Postar um comentário

<< Home