Tá ruim, não tá bom
Precisamos acabar de vez com a síndrome do "tá ruim, mas tá bom", que fica clara nesta Copa do Mundo ainda sem Ronaldos, sem futebol e com a chatice da atuação "de resultados" (que por sorte esteve do nosso lado após os dois primeiros jogos).A situação não deixa retratar o que somos, um País acomodado a suportar o que não deveria ser tolerado. Nossa seleção tem o melhor jogador do mundo, eleito não apenas uma vez mas que, até agora, sequer jogou futebol. Tem o "fenômeno" que, de fenomenal, ainda não mostrou nada além da apatia. Tem um time de estrelas que brilha muito mais no futebol europeu do que quando veste a camisa verde-amarela.
Mas, mesmo assim, após quase apanhar da Croácia e da Austrália, a mídia em geral, em vez de noticiar, torce. Desvia-se de sua função de informar com isenção, de apresentar interpretações variadas e deixar ao público a conclusão. Aceita a condição do "tá ruim, mas tá bom", e a reproduz a milhões de espectadores.
Está na hora de acabar com isso. Não precisamos aceitar jogadores milionários fazendo burocracia no gramado, dando-se ao direito de ainda não terem pego "ritmo de jogo" (ora, eles passam a vida treinando isso, ganham fortunas para isso).
Da mesma forma, não podemos aceitar o "tá ruim, mas tá bom" na economia dos juros pornográficos, na política dos mensalões, na sociedade do abismo estúpido entre milionários e miseráveis. Não podemos consolidar o famoso "jeitinho" que sempre nos vestiu de estereótipo –e, pior, com um fundo de verdade.
Basta de desculpas que "expliquem" o até então fracasso da melhor seleção que o mundo todo esperava, ou desculpas que nos levem a outro caminho que não o de uma nação de verdade, para a qual há potencial inegável.
Basta de vender a imagem de que aqui se conseguem as coisas por outros meios que não o da honestidade, da capacidade. Imagem como uma ridícula propagada de cerveja que faz uma ode à indecência, pregando a vitória conquistada com o "pelado" em campo ou com algo que faça o adversário deslizar e se arrebentar, que mude a trave de lugar, enfim, que traga vitórias não merecidas e ações lastimáveis.
Chega de pensar pequeno. Chega de idéias medíocres. É preciso exigir que este País seja de fato um País, um grande País. E isso só depende de nós. Começando pelo nossos mais íntimos pensamentos.


5 Comments:
Gostaria de parabenizar pela qualidade do blog e dizer que essa última entrada, em particular, ecoa a opinião que também compartilho. Chega de catar migalhas e suportar o insuportável -- não só no futebol, mas no dia-a-dia.
Acabei de ler o livro de memórias de Fernando Henrique Cardoso,
"Presidente do Brasil por Acaso" o qual achei bastante informativo, apesar do nível colegial do conteúdo. FHC conta dos desafios em governar o Brasil e destaca com firmeza a importância que cada brasileiro tem no processo de mudança e progresso do país. Temos que deixar a mania de romantizar o nosso potencial e procurar realmente buscá-lo. Sorte é coisa do acaso. Nosso presente é fruto do descaso.
Marcos, ótimo este seu texto. A respeito do futebol, aconselho para quem gosta e tem acesso a tv à cabo, assistir aos programas da ESPN Brasil. Eles compartilham deste seu pensamento, jornalismo crítico e não torcida desvairada, para analisar esta seleção medonha que se diz(ia) favorita ao título.
Um abração
Nao sao poucas as pessoas mesmo que pensam assim. Vi ontem no UOL news o ricardo feltrin dando o nome aos bois: a vergonha que foi, num momento mais recente, o galvao bueno.
em resumo, todo mundo viu que ridiculo foi o galvao, mesmo vendo lances ruins do ronaldo, falava como se tudo tivesse maravilhoso
fica meio confuso eu explicar aqui, melhor conferir o programa mesmo:
http://audio.uol.com.br/uolnews/2005/a20060619_ooops.mp3
(o audio do programa, aberto pra todos os internautas)
http://noticias.uol.com.br/uolnews/celebridades/ooops/2006/06/19/ult2548u219.jhtm
(o texto do programa)
Micael, obrigado por enviar o link para o áudio. Muito bem colocadas as palavras do Ricardo Feltrin sobre o Galvão Bueno e sua gritante distorção a respeito da "melhora" do Ronaldo. Eis uma triste prova de que muitas empresas de comunicação ainda rastejam na idéia de que produzem fatos, em vez de se reportarem respeitosamente a eles, com objetividade e isenção.
G.Brandão e Diógenes, obrigado pelas palavras e pela participação. A discussão está ótima.
abraços a todos,
Pessoal, dois blogs independentes e interessantes sobre futebol.
Juca Kfouri: http://blogdojuca.blog.uol.com.br/
Soninha: http://blogdasoninha.folha.blog.uol.com.br/
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