29.6.06

Show é vencer?

A frase de Parreira ecoa de norte a sul deste enorme e desajeitado Brasil, um país que se dá ao luxo de jorrar a especuladores mais de R$ 100 bilhões em juros anualmente, mas que mantém a fome em muitas de suas esquinas.

O importante é vencer, diz Parreira. Mesmo não jogando nada, mesmo fazendo feio. A publicidade vai na onda: mesmo que seja como naquela propaganda de cerveja em que os adversários escorregam no estádio e se arrebentam, enquanto que, para que façamos gol, até as traves mudam de lugar.

A idéia não é nova. Curiosamente, foi consagrada também no meio futebolístico, lá na década de 70, quando Gérson “inventou” a lei da vantagem, defendendo que o importante é levar vantagem em tudo. A ética, ora para quê a ética?

Parreira modernizou a idéia, na era do "business", em que somos programados para os resultados. Agora, show é o resultado, portanto vale o toque de bola de repartição pública viciada, desde que o placar termine do nosso lado.

Trazendo a idéia para a vida além dos limites do gramado, nota-se que importante é vencer também no emprego, na promoção a qualquer custo, ao jogar a culpa no colega e escapar ileso, na escapada da multa de trânsito, nos tantos meios de suborno "simpático", na furada de fila etc etc etc. Mesmo que fazendo feio, pisando nos outros, pensando apenas em si próprio, não tendo nenhum ideal coletivo, de cidade, de Estado, de nação, de civilização.

Esse ainda é o Brasil. Desde Gérson, passando por Parreira. Desde sempre. Mas até quando?