29.5.06

Caiu só a ponta do iceberg

A onda de ataques a bases da polícia, a policiais e até contra a população civil no Estado de São Paulo acabou derrubando o secretário de Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, que pediu demissão na sexta-feira.Apesar da alegação de motivos pessoais para deixar o cargo, não faltaram razões expressivas para a queda. Entre os dias 12 e 18 de maio, foram 293 ataques, que causaram 125 mortes, das quais 31 policiais civis e militares, 3 guardas civis, 8 agentes penitenciários, 4 civis e 79 suspeitos. Não bastasse isso, 87 unidades prisionais do Estado entraram em rebelião, simultaneamente, o que matou 18 detentos.A queda de Nagashi não resolve o problema. Pelo contrário, expõe ainda mais a falência do modelo penitenciário, que não está restrita a São Paulo, mas existe em todo o Brasil. Pior que isso: não se trata apenas de falência carcerária, mas quase de uma falência múltipla que atinge a legislação, a política, a saúde, a educação, a economia.A lei brasileira é branda com o crime, permite tantos direitos a quem tem bom advogado para reivindicá-los que torna quase inócua a idéia da punição (veja-se o caso Pimenta Neves). Os que vão para as cadeias (em geral, os pobres) são jogados numa universidade da violência, que mistura ladrões de galinha aos piores homicidas, sepultando a esperança de os presos poderem voltar a viver em sociedade. Tocando a questão social, a distribuição de renda no Brasil é um escárnio. O abismo entre miseráveis e milionários é pornográfico, e esse é um fator gerador de marginalização e violência. Prova disso é que não adiantou à elite privilegiada se esconder em protegidos condomínios fechados. O crime conseguiu parar a maior cidade do País, desde os guetos até os pomposos shoppings, que nasceram justamente para evitar o “perigo” de andar pelas ruas (além do ar-condicionado, claro).A queda de Nagashi é só a ponta do iceberg. Um iceberg que passa pelos 12 anos desastrados do PSDB na política de segurança em São Paulo, mas também passa pelo continuísmo subserviente de Lula à política de juros altos e da péssima distribuição de renda.Nagashi sai, mas o pavio do barril de pólvora continua aceso. E cada vez menor. A explosão da semana retrasada foi apenas bombinha de São João diante do país-nitroglicerina que se está construindo, desde Collor, de FHC e passando por Lula.