"Avatar", um convite à humanidade
Uma inversão da fórmula que é comum em filmes de ficção já chama a atenção, de cara. A espécie humana não é a vítima, mas a invasora de um planeta chamado "Pandora", onde vivem seres humanóides extremamente ligados à mãe-natureza. A princípio, menos evoluídos, mas não, não, não. E é inevitável transportar tal característica, vista lá, ao que falta a nós humanos, aqui, em relação à nossa bela morada azul - e que até então tem suportado nossos gases fedorentos despejados em sua atmosfera.
Pandora nos convida a abrir nossa própria caixa de desafios terrenos. Principalmente o desafio de entendermos que somos apenas uma parte de um mistério maior que a arrogância do “homem-níquel” (que o terráqueo Mário de Andrade tão bem criticou, em folhas de papel). Em cenas incríveis de florestas fluorescentes que saltam da telona, Cameron pinta um quadro de harmonia que faz lembrar a hipótese de Gaia, que entende a Terra como um corpo vivo e com todos os seus componentes interagentes, ligados por uma força maior que todos.
Em uma frase, o filme dá um recado forte: somos energia emprestada da natureza, e para ela temos de devolver tal energia no fim do ciclo que é a vida. Enquanto estamos vivos, porém, é preciso interagir com uma sacralidade inerente à existência, em respeito, manutenção, construção e reconstrução do ciclo de todas as espécies que, juntas, formam um só corpo e uma só energia.
A luta entre as espécies, humana e nativa de Pandora, nos esbofeteia a entender que as diferenças não são um problema, mas uma solução que a natureza encontrou para manter a vida. E destruir o diferente é destruir a si mesmo. Aí entra o toque romântico de Cameron, criticado por alguns em “Titanic”, e de novo presente em “Avatar”. Ora, mas como fazer cinema sem romantismo? E que romantismo gostoso ele coloca entre seres de espécies distintas, que nos faz torcer, do começo ao fim, para haver uma fórmula mágica d’aquilo continuar. E para sempre!
Saí do cinema com olhos encharcados, confesso. Tocado por um recado fortíssimo de que toda a vida é muito mais complexa e muito mais mágica do que supomos entender.
PS - O site do filme: http://www.avatarfilme.com.br/






