4.2.10

"Avatar", um convite à humanidade

Assisti a "Avatar" esta semana. E me surpreendi com a profusão de mensagens que o filme de James Cameron traz, embelezadas com uma fotografia e efeitos incríveis. A obra é muito mais que uma produção belíssima e contemporânea. É provocativa. Ecologia, espiritualidade, especismo, atitude, liderança, amor, são alguns dos temas pelos quais Cameron passeia e sobre os quais nos convida a refletir.

Uma inversão da fórmula que é comum em filmes de ficção já chama a atenção, de cara. A espécie humana não é a vítima, mas a invasora de um planeta chamado "Pandora", onde vivem seres humanóides extremamente ligados à mãe-natureza. A princípio, menos evoluídos, mas não, não, não. E é inevitável transportar tal característica, vista lá, ao que falta a nós humanos, aqui, em relação à nossa bela morada azul - e que até então tem suportado nossos gases fedorentos despejados em sua atmosfera.

Pandora nos convida a abrir nossa própria caixa de desafios terrenos. Principalmente o desafio de entendermos que somos apenas uma parte de um mistério maior que a arrogância do “homem-níquel” (que o terráqueo Mário de Andrade tão bem criticou, em folhas de papel). Em cenas incríveis de florestas fluorescentes que saltam da telona, Cameron pinta um quadro de harmonia que faz lembrar a hipótese de Gaia, que entende a Terra como um corpo vivo e com todos os seus componentes interagentes, ligados por uma força maior que todos.

Em uma frase, o filme dá um recado forte: somos energia emprestada da natureza, e para ela temos de devolver tal energia no fim do ciclo que é a vida. Enquanto estamos vivos, porém, é preciso interagir com uma sacralidade inerente à existência, em respeito, manutenção, construção e reconstrução do ciclo de todas as espécies que, juntas, formam um só corpo e uma só energia.

A luta entre as espécies, humana e nativa de Pandora, nos esbofeteia a entender que as diferenças não são um problema, mas uma solução que a natureza encontrou para manter a vida. E destruir o diferente é destruir a si mesmo. Aí entra o toque romântico de Cameron, criticado por alguns em “Titanic”, e de novo presente em “Avatar”. Ora, mas como fazer cinema sem romantismo? E que romantismo gostoso ele coloca entre seres de espécies distintas, que nos faz torcer, do começo ao fim, para haver uma fórmula mágica d’aquilo continuar. E para sempre!

Saí do cinema com olhos encharcados, confesso. Tocado por um recado fortíssimo de que toda a vida é muito mais complexa e muito mais mágica do que supomos entender.

PS - O site do filme: http://www.avatarfilme.com.br/

23.1.10

Paulistaníssima

“Comoção da minha vida”. Ou “grande boca de mil dentes”. De uma forma e de outra, com medo e paixão, Mário de Andrade define a São Paulo que desponta moderna, assustadora, mas capaz de encantar. Isso antes de Adoniran, que provou ser possível, sim, fazer samba bom sobre o concreto. E antes de Rita Lee, a mais completa tradução da cidade, segundo Caetano, autor de um verdadeiro hino, “Sampa”.

“Os caminhões rodando, as carroças rodando, rápidas as ruas se desenrolando, rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos... E o largo coro de ouro das sacas de café! Oh! este orgulho máximo de ser paulistanamente!!!”, escreve Andrade, em “Paulicéia Desvairada”.

Interessante a repetição da palavra “rodando”, depois “rápidas” e “estalidos”. Idéias de movimento de uma metrópole que, diz o jargão, não para. Ou, como canta Cauby, num bar lotado em plena segunda-feira à noite (e toda segunda-feira, sempre com casa cheia), bem onde cruzam a Ipiranga e a São João: “São Paulo, que amanhece trabalhando. São Paulo, que não sabe anoitecer...”.

Caetano também canta a contradição vista por Andrade. Fala em “dura poesia concreta de tuas esquinas”, mas, justamente na encruzilhada em que o carioca paulistano Cauby hoje se apresenta, diz, passional, que “alguma coisa acontece no meu coração”. Mesmo tendo o baiano, também paulistano, nada entendido ao pisar o solo onde já não rodam carroças e os estrépitos e estalidos são de motores quase sem espaço para trafegar.

E quantos já não sentiram ou sentirão a mesma coisa? Ao olhar para aquele centro velho iluminado de amarelo por postes de cobre. Ou para a Paulista com prédios de vidro que, não bastasse sua altura, ainda têm torres sobre eles, que se acendem à noite em multicores, como que provando que a cidade venceu não apenas a escuridão, mas todo tipo de altura.

Sim, comoção, como diz Andrade. Que brota do coração, tal qual relata Caetano. Mesmo diante de uma boca de mil dentes que, ao contrário de dilacerar a todos, acolhe num sorriso grandioso, ora monstruoso, soltando todos os tons de voz e melodia, criando um dos maiores caldeirões culturais do mundo, vivo, em constante transformação criativa. Panaméricas de Áfricas, quilombo de zumbis, terra fértil em cio permanente, excitando com suas curvas de concreto que parecem tremular no Copan, capazes de dar um frio na barriga na Ponte Estaiada ou que se entrelaçam como pares de pernas em anéis viários que se sobrepõem.

Impossível ficar indiferente a São Paulo. Há quem odeie, há que ame, há quem conviva com um misto de amor e ódio, mas não há indiferentes. Estou entre os que amam, em paixão constante, e me excito diante da boca de mil dentes, sempre querendo passear entre as suas curvas, acabar digerido e servindo de alimento para um metabolismo acelerado. Até chegar ao êxtase de me sentir um pedacinho integrado a uma das cidades mais incríveis do mundo. Filha do Brasil. Mãe do Brasil. Orgulho dos brasileiros.

Foto: Marcos Brogna

12.1.10

BBB, de vooooooooolta!

Começou tudo de novo. Pedro Bial, que já fez reportagens genais como correspondente internacional da Globo, voltará a fazer crônicas sobre glúteos e peitos de mulheres que acabarão posando para revistas masculinas. Ou para bíceps, tríceps e outros músculos de homens que acabarão nas capas de revistas para o público gay. E para as tantas conversas jogadas fora em meio a todos os hormônios, de desejo ao ódio, que afloram no confinamento das celebridades globais instantâneas. Tudo isso em horário nobre da televisão mais assistida do país.

De voooooolta, como diz o próprio Bial. Começou, de novo, o Big Brother Brasil, programa que já virou fenômeno. E em muitos sentidos. Primeiro, pela audiência que, apesar da queda, ano após ano, garante sua manutenção na grade global há nada menos que dez anos. Um período em que, para a televisão de hoje em dia, é raro sobreviver com uma fórmula tão repetitiva.

Nada contra, muito menos a favor do Big Brother. Mas é curioso como pode haver tanta gente com tempo para não apenas assistir todo ano à mesma fórmula, e por três meses seguidos, como também entrar na internet ou pegar o telefone para votar toda semana em um personagem que deve sair da casa, gerando lucros exorbitantes às operadoras de telefonia e mantenedoras de sites – além da própria Globo, claro.

Certamente, muitas pessoas perdem mais tempo com o Big Brother que com uma boa peça de teatro ou um bom filme no cinema, com uma exposição interessante, uma visita a um museu. Ou mesmo em relação aos amigos e parentes queridos, a quem sempre se dá aquela desculpa: estou tão sem tempo...

Por tudo isso, o Big Brother é, acima de tudo, genial. Decifrou o mistério de multiplicar dinheiro sem precisar criar nada além de uma arena em que a própria condição humana dá conta de todo o resto. A libido, a inveja, a disputa, a vaidade, a carência, a paixão, o amor, o ódio, todos esses sentimentos estimulados por uma ratoeira filmada que encena a própria vida na tela da ficção. É a mentira mais verdadeira da telinha mágica.

ÁUDIO: BBB.mp3

Gordo é o preço da novela!

Parecia que era o fim da polêmica. Mas, não. Parece, na verdade, só o começo. E ele está na manchete do jornal O LIBERAL desta terça-feira.

Depois que o prefeito de Americana, Diego De Nadai, mandou derrubar as estátuas gigantes do portal de entrada da cidade, o Ministério do Turismo reage. E quer que o prefeito devolva o dinheiro que foi encaminhado a Americana através de uma emenda parlamentar.

O portal todo custou R$ 805 mil, a maior parte vinda de Brasília, e R$ 185 mil dados como contrapartida pela Prefeitura da cidade. Fizeram a obra, as estátuas fugiram ao padrão do projeto, não se acompanharam os serviços como deveria ser feito, o trabalho foi entregue errado - porém pago- , e agora se gasta mais R$ 7 mil para derrubar com o risco de ter de devolver mais um tanto para o Ministério do Turismo porque derrubou.

Eis um deboche, que nos inspira a perguntar: até onde essa novela, feita através de capítulos caros e bancados com o dinheiro do povo, vai? E se uma enxurrada de processos começa a cair sobre a Prefeitura (um deles deverá ser do próprio artista, que disse que vai à Justiça). Ficarão os americanenses pagando extras pelo portal? E tudo por causa de duas estátuas gordas?

Parece uma gastança que já extrapolou o bom senso e está totalmente fora de aceitação, fora de contexto!

ÁUDIO: DEVOLVE.mp3

9.1.10

Portal e prioridades

Assunto que abordo em minha coluna "Contextualidade", na edição impressa deste domingo.

ÁUDIO: PRIORIDADES.mp3

8.1.10

Os gigantes ao chão

Sim, arte é arte, não se discute. Goste-se ou não, é arte, uma concepção transformada em formas pintadas, esculpidas, escritas, cantadas etc. Mas o polêmico Portal de Americana, com duas figuras humanóides disformes (não "gordas", mas disformes mesmo), fugiu ao projeto original do próprio artista, porque os moldes das estátuas teriam sido quebrados e, segundo o autor, houve pressão para que tudo fosse entregue antes da mudança de administração pública.

A polêmica durou exatamente um ano. Nesta madrugada de sexta, num mesmo janeiro em que se discutia, em 2009, a beleza (ou a falta dela) do Portal, as estátuas estão indo ao chão, enquanto escrevo este texto. Motivo alegado: infiltração de água e risco a quem passa sob a obra. Ou seja, toda a discussão acabou em água. E as chuvas, quem diria, acabaram dedidindo a parada.

E você, o que achou, caro webleitor? Gostou da decisão pela retirada ou não? Com a palavra, você!

OUÇA: GIGANTES.mp3

Foto: Flávio Oliveira

7.1.10

Falta seriedade ainda

ÁUDIO: SERIO.mp3