20.11.08

Dignidade aos afro-descendentes

Hoje é Dia da Consciência Negra, mas a data, que poderia servir para uma reflexão a respeito da necessária igualdade racial no Brasil, às vezes gera ainda mais racismo.

Ontem, ouvi uma pessoa dizer que, para ela, não deveria haver feriado em lugar algum (aqui na região, só há em Hortolândia e Sumaré). O motivo alegado por ela é que, já que há o dia da consciência negra, deveria então haver o dia da consciência branca. E foi além: disse que é descendente de italianos e esse povo, que chegou ao Brasil tanto quanto os escravos, não tem dia de consciência.

Eis uma manifestação racista, comum de ser ouvida e que merece uma profunda reflexão.

Primeiro, porque é muito diferente a forma como chegaram aqui os imigrantes italianos ou norte-americanos e como chegaram os negros. Americanos e italianos vieram por livre e espontânea vontade, em busca de um novo mundo diferente da Europa em guerra ou dos Estados Unidos em batalha interna (caso da Secessão).

Já os negros africanos foram retirados de seus países à força, arrancados de suas casas para trabalhar de graça para povos da raça branca. Sofreram, foram açoitados, humilhados e se transformaram em propriedade de homens que nunca foram melhores que eles, mas se julgavam seus donos.

Eis a diferença que torna desnecessário um dia para uma suposta "consciência branca" ou para alguma consciência sobre os imigrantes italianos. Uma diferença que faz mais que necessária a luta pela igualdade racial, já que, mesmo com o fim da escravidão, os negros foram jogados no mundo sem chances de ser alguém na vida, com muito menos oportunidades que os brancos.

Hoje, portanto, não é um dia para se pensar em negros contra brancos. É dia para se refletir o quanto a Europa e as Américas devem em dignidade aos afro-descententes.

19.11.08

Diesel, privilégios e contradições

Sempre me intrigou a limitação do uso do diesel em automóveis no Brasil. Não o que é proibido, mas o que acaba liberado nas brechas da lei.

Na Europa, os mais modernos veículos têm opções de motores com esse combustível, como o recém-lançado VW Golf Geração 6 (muito à frente do nosso, diga-se), que ganhou uma motorização 1.4T a diesel muito mais eficiente e econômica que a 1.6 feita por aqui e menos poluente que a gasolina.

Tudo bem que o Brasil inventou o motor a álcool e agora o flex, duas genialidades da engenharia automotiva -e também melhores para a natureza do que a queima do diesel, um combustível derivado do petróleo. Mas não é isso que me intriga, o que me intriga é saber que a nossa lei, que só permite veículo utilitário rodar com diesel, é, na verdade, uma piada, na prática.

E basta olhar a cidade de Americana em junho para se ter a certeza disso. Caminhonetes imensas cuja utilidade da caçamba se resume a caixas de som irritantes e engradados de cerveja (para o motorista, inclusive) rodam a diesel, combustível mais vantajoso e proibido para carros de passeio, uma discrepância, para dizer o mínimo. Aliás, mais uma entre as tantas que há por aqui.

Você, o que acha, caro leitor?

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18.11.08

Sem obras e sem crédito

Gelson Ginetti diz que as obras pararam porque depende de o novo prefeito querer ou não dar continuidade nas melhorias na Paschoal Ardito, como tudo tem dependido na atual administração, que encontrou em Diego De Nadai um bode expiatório para justificar todas as promessas não cumpridas. Já Orestes Camargo Neves diz que as obras pararam por causa das chuvas, e até brincou, lembrando "as águas de março", depois das quais as obras devem ser retomadas.

Quem está com a razão? Nenhum! Jogar a responsabilidade do novo prefeito é fugir à promessa feita pelo atual, de terminar as melhorias na via. Diego ainda não tomou posse e não tem responsabilidades sobre os compromissos da atual administração. Já dizer que a época de chuva é responsável pela paralisação dos serviços sugere que São Pedro resolveu fazer chover em final do ano apenas em 2008, como se não fosse assim em toda Primavera e Verão.

Na verdade, a administração que vai deixando o poder em Americana está terminando de forma melancólica, deixando de cumprir o que prometeu (as 120 câmeras, o recapeamento da cidade e agora as melhorias na Paschoal Ardito, para citar os três últimos exemplos) e ainda tentando jogar a culpa no futuro prefeito. E, para fechar com chave de ouro, perdeu a Certidão Negativa de Débito, como revela O LIBERAL desta terça-feira. Ou seja, está sem obras e sem crédito.

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13.11.08

Pobre país rico

Um estudo divulgado ontem é um verdadeiro deboche a quem tem descontado em seu holirite uma gorda quantia de impostso para os cofres governamentais, dinheiro que deveria voltar em serviços públicos como saúde, educação, saneamento, infra-estrutura etc, mas emagrece demais no caminho de volta.

O estudo é do Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, e mostra que os gastos do governo brasileiro com o pagamento de juros é 8 vezes e meia o dinheiro investido em educação. Sim, isso, mesmo, o Brasil gasta 8 vezes e meia mais em juros para a especulação financeira do que em educação.

São nada menos que R$ 1,68 trilhão com juros, enquanto com educação o investimento ficou em apenas 149,9 bilhões. Ou seja, a decisão de torrar dinheiro público para dar lucro a especulador foi oito vezes e meia mais prioridade para o governo brasileiro do que educar seu povo para que chegue o tão esperado futuro ao país que é sempre “do futuro”.

E não se trata de culpar este ou aquele governo. Os números são de sete anos, entre 2000 e 2007. Ou seja, englobam o governo Fernando Henrique e o de Lula, o mesmo Lula que, quando era oposição, fazia pesadas críticas à gastança de FHC com os juros nas alturas.

Mas não é só isso. O gasto com juros também supera de longe o que foi empregado em saúde, que somou R$ 310,9 bilhões.

O próprio Ipea faz uma análise crítica diante da constatação, dizendo que o gasto com juros é improdutivo, pois não gera emprego e tampouco contribui para ampliar o rendimento dos trabalhadores e também colabora para a concentração de renda.

Depois dizem que o Brasil é um país pobre. Haja pobreza para bancar tanto desperdício...

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12.11.08

R$ 8 bilhões às montadoras

Como conseguir dinheiro? Eis um tema que norteia a vida de muitos (senão todos). E nesta semana já houve pelo menos dois exemplos interessantes.

Um deles bem próximo de nós, onde o prefeito eleito Diego De Nadai, acreditando que conseguir dinheiro não é nada fácil, foi garimpar emendas ao orçamento junto a deputados da capital federal. E conseguiu, ao menos em promessas, quase R$ 4 milhões para projetos de seu governo. Um sinal de que, para se conseguir ter mais dinheiro para suas administrações públicas hoje em dia, os prefeitos precisam literalmente sair dos gabinetes e lutar.

Outro exemplo aconteceu no eixo Brasília-São Paulo, só que aí foi um exemplo de que conseguir dinheiro pode não ser tão difícil assim. Começou com o governo federal, que liberou R$ 4 bilhões em crédito oriundo de banco público para montadoras de veículos superarem a crise mundial. Depois, foi a vez do governo paulista, que liberou outros R$ 4 bilhões, também oriundos de banco público, para socorro às mesmas empresas: as montadoras de veículos.

É tanto dinheiro injetado em um só setor que, ontem à noite, a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores, a Anfavea, admitia que os recursos serão suficientes para ficar tudo sob céu de brigadeiro. Justo a Anfavea que vive chorando e reclamando da situação. Pudera, são R$ 8 bilhões que caíram do céu em apenas uma semana como linhas de crédito para se continuarem os financiamentos intermináveis nas compras de veículos.

A pergunta é: precisa injetar tanto dinheiro em multinacionais que têm como único propósito lucrar aqui no Brasil? Não seria melhor investir R$ 8 bilhões em Saúde e Educação, por exemplo? Ou em outros setores produtivos com mais compromisso com o Brasil do que montadoras que produzem por aqui carros inferiores porém mais caros que os que produzem na Europa, por exemplo?

O governo acha que não, pois pensa ser o setor automobilístico crucial para o desenvolvimento do País. Mas, há quem discorde do governo, pois a venda de tanto carro como vinha ocorrendo está, na verdade, entupindo as ruas e fazendo as pessoas se endividarem cada vez mais.

Afinal, é fácil ou difícil ganhar dinheiro? Depende. Se for um prefeito de Americana, é preciso gastar sola de sapato. Já uma montadora de veículo estrangeira não precisa sequer de uma cantada de pneu.

E você, o que pensa de tudo isso, caro leitor?

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6.11.08

Obama, nós e o mundo

O jornal O LIBERAL desta quinta-feira revela a expectativa da eleição de Barack Obama para o Brasil. Mais que isso: para a RPT (Região do Pólo Têxtil), onde estão Americana, Santa Bárbara d’Oeste, Nova Odessa, Sumaré e Hortolândia. E o que a reportagem levantou caminha no sentido do otimismo.

Para lideranças do setor têxtil, Obama representa uma oportunidade de os Estados Unidos diminuírem as barreiras ao mundo, o que pode facilitar a venda dos produtos têxteis brasileiros no poderoso mercado americano. É uma esperança para o setor mais importante da economia da região.

No seu discurso, na quarta, em Chicago, Obama cita reconciliação com várias nações, dando uma indireta às trombadas que George Bush deu até na ONU, fazendo dos Estados Unidos um dos países mais odiados do globo. Obama também falou em energias alternativas e o setor sulcroalcooleiro brasileiro aposta que isso pode significar uma maior abertura ao etanol feito por aqui.

Mas Obama acaba de ser eleito, só vai assumir em janeiro e tudo ainda são expectativas. De qualquer forma, já significam uma grande mudança, ao menos conceitual, após oito anos da terrível era Bush, em que o mundo era visto como um quintal de um governo que se baseou em dois grandes (e graves) desprezos: ao meio ambiente e à paz.

De fato, Obama já representa um momento histórico sem precedentes para os Estados Unidos e para o mundo. É o primeiro negro a assumir o posto de homem mais poderoso do planeta, disposto a olhar não apenas para o próprio umbigo, mas para nada menos que o próprio planeta.

É uma evolução inegável. Que pode ser entendida perfeitamente na histórica luta contra o racismo, por exemplo. Martin Luther King disse que tinha um sonho, o sonho de ver o fim do preconceito. Obama sustentou sua campanha em uma palavra: chance, chance que virou realidade. Ou seja, os Estados Unidos evoluíram do sonho para a chance e da chance para os fatos.

God bless Obama!

5.11.08

Nas Palavras Dele

POR GENILSON BRANDÃO
De Washinton, D.C.

Retórica política nunca me impressionou. Sempre me deixou com um ar de dúvida e ceticismo. Não mais. Ontem à noite, Barack Hussein Obama emocionou o país com seu discurso de vitória num palco ao ar livre em Grand Park, Chicago.

Obama falou de forma emotiva, mas firme, sobre o que acabava de acontecer. O presidente eleito reconheceu que sua candidatura e eleição eram vistas como desafios impossíveis. Mas disse que o povo americano havia reconhecido que o desafio maior é o futuro dos EUA. Obama prometeu governar o país não só para aqueles que haviam votado nele, mas para aqueles que disse que ainda precisava ter o voto de confiança. Reconheceu que só a coletividade faz a união e pediu para que o povo considerasse isso. Evocou as palavras de Lincoln: "We are not enemies, but friends — though passion may have strained it must not break our bonds of affection." (Somos amigos, não inimigos — a paixão pode ter afetado nossa amizade, mas ela não deve romper nossos laços de afeição).

Historicamente, Obama contextualizou parte de seu discurso de vitória com a narrativa de Ann Nixon Cooper, uma senhora de 106 anos que mora em Atlanta. Disse que Ann havia nascido logo no final da escravidão nos EUA, numa era em que o voto não era um direito dela pelo fato de ela ser uma mulher e de ser uma negra. Disse que, em mais de um século de vida, Ann já viu muita coisa, boa e ruim, e o que ela e ele puderam experenciar nessa eleição foi transformador. Obama disse que se em 100 anos pudemos conseguir tudo isso, imagine só o que o futuro aguarda.

Imaginar que num país onde há 143 anos atrás Obama poderia ter sido propriedade de alguém como um escravo, contemplar o que aconteceu nessa eleição é realmente fabuloso.

PS Meu querido amigo Genilson Brandão (que está na foto acima) é jornalista, brasileiro de Americana, e está gentilmente escrevendo de Washington, onde mora e trabalha, para o Blogna, passando a visão de um americanense presente num momento histórico.