Carlos Ventura / Editor executivo do Grupo Liberal
Que bicho mordeu esse povo que decidiu, de uma hora pra outra, ir para as ruas e gritar contra tudo o que está errado no país? Antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros "ólogos" se debruçarão durante anos para estudar o fenômeno e traduzi-lo em centenas de páginas, com referências históricas de movimentos populares deflagrados em diversas partes do mundo. Independente da origem da inspiração democrática que toma de assalto ruas e avenidas da nação, devemos celebrar o sopro de indignação que tem tirado milhares de cidadãos do conforto de seus sofás para protestar contra o mau uso do nosso dinheiro.
O jornal "Folha de S.Paulo" foi feliz ao estampar em manchete "'Contra tudo' e por mudanças, milhares vão para as ruas no país", na edição de ontem. De fato, os protestos começaram em quatro capitais brasileiras com o propósito de reivindicar a redução das tarifas de trens, ônibus e metrôs. Porém, aos poucos, foram sendo moldados pelo povo. Logo, bateram de frente com a Fifa e com o Planalto, no movimento "Copa pra quem", um grito de indignação contra o investimento bilionário na construção de estádios superfaturados, em detrimento da alta carga tributária, do desemprego, do aumento da inflação e da miséria que ainda assola uma grande parcela do nosso povo.
Para o bem da democracia e do desenvolvimento do Brasil, o movimento ganha força e razões diferentes a cada dia. Uns protestam contra a tarifa, outros resolvem berrar contra a homofobia, enquanto vão surgindo reivindicações específicas de municípios, classes sociais e categorias. Tudo isso é resultado de décadas de sonolência. É como se a população saísse de um longo torpor, alimentada por drogas lícitas como as novelas globais, o Bolsa Família e o futebol. Ao comentar a primeira página do LIBERAL postada ontem na rede social de fotos Instagram, que destaca o gasto de R$ 900 mil da Prefeitura de Americana com aluguel para inaugurar o Poupatempo ainda este ano, o instagramer César Rocha afirmou: "O futebol anestesia a mente do povo". E ele tem razão. Durante anos, vivemos entorpecidos e alheios à corrupção e aos desmandos de uma classe política carreirista e sem comprometimento social.
Estamos vivenciando um momento histórico. Que pode mudar drasticamente o conceito de política e de gestão do bem público. Portanto, não fiquemos apenas como espectadores dessa multidão que atravessa a noite, sob chuva, frio, esprei de pimenta e balas de borracha, para mostrar que existe sangue correndo nas veias. Descubra o que te aflige e vá para as ruas. Você acha que não, mas pode fazer a diferença.